— Tolisses

Coisas do Ulisses Mattos

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Programas como o “American Idol” e seus filhotes que nasceram ao redor do planeta fazem bem mais do que mostrar gente com talento, se esforçando para chegar ao estrelato. Essas atrações entregam ao telespectador algo tão interessante quanto os ídolos em potencial: sabem explorar o ridículo de quem vai lá e fracassa miseravelmente. Muitas vezes, a impressão que se tem é que existe um pacto silencioso entre os produtores e um tipo todo especial de ridicularizados.

 

À primeira vista, pode parecer que esses programas têm o objetivo de humilhar os sem-talento, para o bel-prazer dos sádicos na frente da televisão. Mas não é por aí. No fundo, o que o programa faz é realizar o sonho de algumas dessas pessoas, que só querem aparecer na TV. Sim, pois é impossível que muitos desses candidatos achem que sabem cantar.

 

Na versão brasileira que foi exibida pelo SBT, teve um sujeito que, depois de fazer mil poses para a câmera na fila de espera e se apresentar para os jurados, confessou ao apresentador que não tinha nenhum jeito pra cantor. Tava na cara que o rapaz, com tantos americanos já fizeram em tantas temporadas de American Idol, só queria suas parte no sonho warholiano, com seus minutinhos de fama.

 

A ridicularização feita por esses programas, de forma menos ou mais discreta, é só um preço a se pagar pelo desejo realizado. É o que acontece também na seleção de candidatos para o Big Brother Brasil, com aqueles vídeos caseiros que mostram o que há de mais ridículo na espécie humana. Eles não se importam, só querem aparecer, poxa vida.

 

Essa vontade irresistível tem diferentes níveis. Às vezes, é coisa simples de ser satisfeita, bastando o indivíduo parar atrás de alguém que está sendo entrevistado na rua, dando uma de papagaio de pirata. Tática semelhante é usada pelas mocinhas que vão aos programas de auditório, usando sua melhor roupa e caprichando na maquiagem para serem selecionadas para as primeiras fileiras. Uma vez, fiquei com uma garota que se gabou de já ter ido ao Domingão do Faustão e ter sido escolhida para ficar na segunda fila. Ela usava isso como prova de que era bonita. E o mais ridículo é que um dia me peguei usando essa informação também para me gabar com amigos , dizendo que fiquei com menina acima da média (opa, estou fazendo de novo?).

Mas é nas mensagens para os comentaristas, durante as transmissões de jogos de futebol, que vemos a expressão mais contida (e talvez das mais frustrantes) dessa vontade de aparecer. O sujeito decide que quer ver seu nome na tela da TV sendo lido pelo narrador da partida. Então resolve usar o recurso que a Globo oferece e envia por e-mail sua sensacional pergunta. Na falta do que dizer, manda algo do tipo “E então, Casagrande? É cedo para comemorar o resultado?”. Se essa é a pergunta selecionada, imaginem as que ficaram de fora.

Mandar essas perguntas para comentaristas só pode ser vontade de aparecer. E a coisa ficou ainda mais “interessante” com a possibilidade do envio de uma gravação sua fazendo o tal questionamento. Agora o cara pode aparecer, com rosto e tudo, num videozinho no meio da transmissão. Essa é para quem quer aparecer de forma sofisticada, demonstrando que tem uma webcam em casa e banda larga para enviar o arquivo.

Mas a forma mais triste de aparecer num jogo de futebol é quando o pobre coitado vai para o estádio com uma placa saudando o narrador (“Filma eu, Galvão!”) ou ainda anunciando a novela que irá ao ar ao fim do jogo. Por esses, nem Andy Warhol esperava.

Versão original publica em abril de 2006, na coluna “1001 Polegadas”, no Jornal do Brasil.