— Tolisses

Coisas do Ulisses Mattos

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Especialistas em netiqueta dizem que se você for trocar mais de três ou quatro frases com alguém no Twitter, melhor chamá-lo para um local de conversas, como o MSN. Mas e se fizermos o contrário, tuitando em um ambiente de bate-papo? Fiz a experiência. É claro que não seria num chat qualquer. Fui pro sexo virtual do UOL, com o sensual nickname @opassaro.

Pensei em @passaralho, mas sou muito elegante. E lá me pus a tuitar: “@opassaro fala para Todos: Mto calor hoje!”. Não sabia o que aconteceria. Será que o estilo Twitter contagiaria todos no chat de sexo? Será que pipocariam frases do tipo “Enganando geral sobre minha centimetragem, huahua!”. A resposta veio logo: Safado, PalzaoNaCam e CasalCafeLeite deixaram a sala.

Vendo outros chegando, resolvi mandar alguma das gracinhas que me renderam seguidores no Twitter: “Qta gente entrando e saindo. Isso sim é uma sala de sexo”. Se você se sente desprezado no Twitter, precisa saber como é ser ignorado num chat de sacanagem. Dói mais, pois você sabe que os outros estão se divertindo à beça nos reservados. Mas fui adiante, ousei. Citei uma frequentadora: “Atenção p/ @loirinhafogosa. Chegou c/ tudo!”. Ela nem ligou e foi perguntar pro Ze28cm se ele tinha carro.

Aborrecido, comecei a procurar motivos pra desclassificar aquela gente que não se empolgava com tuitadas. Achei: “HOMEM (reservadamente) fala para Todos: sou homem”. Putz. Aí resolvi atacar a turma, ainda que com a classe que me é característica: “Acho q rolam fakes por aqui”.

Até DUDINHA, que eu achava que ia curtir a experiência, devido ao nick meio tuiteiro, deixou a sala. Ainda tentei um “Pessoal saindo do chat. Vão ver A Fazenda 2?” e um “#FF: @carinhosa”. Nada aconteceu. Lancei uma bomba broxante na sala, com “Tudo aqui tá sendo visto pelo @ocriador”, e me despedi: “Vou embora. Vcs não merecem falar comigo e nem com meu anjo”. Só depois me toquei que podia ter tentando um #chupa. Fica pra próxima

 

Publicado originalmente em dezembro de 2009, na revista e no site YouPix.

Especialistas em RH afirmam que é esperada para o Brasil a importação de mão-de-obra qualificada para vários setores. Eu acho que devemos importar também estátuas-humanas, pois aqui o serviço não é feito tão bem como lá fora, onde esses profissionais chegam a assustar os mais distraídos, de tão bem caracterizados que ficam. O que se vê atualmente por aqui, pelo menos no Rio, são umas estátuas meio vagabundas, mal vestidas, mal pintadas e, principalmente, mal paradas.

As estátuas humanas brasileiras não gostam muito de ficar estáticas. Se mexem tanto que seria mais fácil se fantasiarem de robôs, até porque os movimentos que fazem a toda hora imitam o deslocamento das máquinas em forma de homem, não estátuas (até porque, ora bolas, estátuas não se mexem). E algumas dessas estátuas ainda fazem uns sinais a todo momento, indicando o potinho onde os admiradores que param para observar a tentativa de imobilização devem deixar uma gratificação.

Vejo que esses profissionais já estão desenvolvendo algumas malandragens nesse setor. Uma delas é o uso de máscaras, que ajuda bastante o candidato a estátua, que não precisa ficar com o rosto pétreo, prendendo o riso diante de alguma gracinha ou reprimindo a cara feia por ninguém estar deixando um trocado. Pensando bem, o artifício da máscara abre alas para uma boa experiência, que um dia ainda hei de testar. Minha ideia é

Em janeiro de 2011, o editor da Playboy, Edson Aran, propôs que eu organizasse para a revista o “Novíssimo Dicionário Machista”, um TEXTO DE HUMOR com verbetes feitos por humoristas e frasistas. Todos foram escalados com a missão de serem machistas. Escolhemos alguns nomes e parti para a convocação de gente de várias gerações e mídias. Assim, o texto teve colaboradores já conhecidos, como Helio de la Peña,  Ivan Lessa,  Marcelo Madureira, Nani, Fraga, Carlos Castelo, Luis Pimentel e Fabio Porchat, e novos talentos, como Ronald Rios, Nigel Goodman, Silvio Lach, Tio Dino, Piangers, Adriano Matos, Pedro Leite e Maurício Meirelles (que viria a se tornar um CQC).

Para ler todos os verbetes, clique neste link aqui, que vai para o texto no site da revista (ou cole http://playboy.abril.com.br/entretenimento/cultura-e-entretenimento/novissimo-dicionario-machista-brasileiro-2/ direto no seu navegador).

Para ler só os meus verbetes, basta olhar as letras abaixo, em sequência, e elas magicamente vão virar palavras, que por sua vez formarão frases em sua mente:

 

“U”

UCRANIANA Verdadeira nacionalidade de grande parte das mulheres de sites com fotos de “lolitas russas”, mas você nem se importa. Origem da escritora Clarice Lispector, que possuía o extremo talento de ser compreendida em sua plenitude apenas por leitoras do sexo feminino, assim como as etiquetas de roupa com instruções de lavagem.

UMBIGO Parte do corpo em que mulheres mais liberais passaram a usar piercing, peça que equivale a uma placa com a inscrição “O buraco é mais embaixo”.

UMIDADE Sensação que a mulher deve sentir em maior grau ao entrar no carro importado de quem a corteja, conferir o extrato bancário do parceiro ou ouvir um sussurro ao pé da orelha dizendo: “Você é mil vezes melhor do que a minha esposa”.

URRO Som utilizado pelo sujeito para descrever aos amigos a reação sonora que sua nova conquista teve durante a cópula com ele. Som emitido de maneira completamente justificável quando o homem é atingido por golpe em sua bolsa escrotal. Som emitido de maneira exagerada quando a mulher passa por parto natural.

 

“X”

XADREZ Jogo de tabuleiro que sugere a superioridade intelectual do homem dado o baixo número de mestres do sexo feminino. Forma antiga de designar o local para o qual você é enviado se não pagar pensão à ex-mulher que possui todos os membros (sendo dois superiores e dois inferiores) em condições de executar trabalhos que lhe permitam autossuficiência.

XAVECO Modalidade de galanteio para quem não conta com bens materiais ao alcance visual da fêmea.

XEPA O ano de 2030 – quando você finalmente terá condições de pegar as mulheres-frutas surgidas recentemente como dançarinas de funk.

Todo dia topamos com dejetos fecais pelas calçadas. Geralmente são presentinhos do melhor amigo do homem. Mas uma vez encontrei no chão o mesmo material no curioso formato de retângulo. Um retângulo perfeito, todo aparadinho. Tive certeza de que naquele caso, o autor foi o melhor amigo do cão. Sim, foi gente que deixou aquilo lá. Talvez um mendigo ou um bêbado que não se aguentou na madrugada. O que importa é que ali estava o flagrante de uma característica inerente da humanidade. Não a necessidade de defecar, mas sim a vocação artística do ser humano. Diante daquele tijolinho de merda, parei para pensar em como um sujeito, em uma situação das mais adversas, se deu o trabalho de modelar aquela massa. Não tive dúvidas: era um artista. Piero Manzoni que o diga. Quem?

 

Piero Manzoni foi um italiano que em 1961 apresentou a obra Merda de artista, nada menos que uma série de 90 latinhas seladas cujo conteúdo eram suas próprias fezes. Uns30 gramas em cada. Manzoni deu uma cagada enorme com essa ideia. O troço foi um sucesso e apreciadores de arte trataram de adquirir o trabalho pelo preço sugerido: seu peso em ouro. Atualmente, uma dessas latinhas sai por cerca de US$ 30 mil. Não é pouca merda. O curioso é que algumas das latas explodiram com o tempo, por causa da pressão interna causada pelos gases emanados da matéria prima. Outras estão sendo corroídas pela acidez do material (sabe-se lá o que Manzoni comeu). Nesse caso, me pergunto se os restauradores de arte vão repor o conteúdo com seu próprio trabalho intestinal.

Mais trabalhoso será uma restauração de Holy Virgin Mary, do inglês Chris Ofili. O sujeito pegou mais pesado. Não só por ter usado fezes de elefante na obra, mas também por usar esse material para retratar a Virgem Maria. É claro que deu a maior merda, com o prefeito de Nova York querendo proibir a exposição da obra por lá, em 1999.

Em Uberaba, Mizac Limírio expôs em 2002 a mostra Dejeções anônimas. Seguindo o conceito da Evacuarte, catou estrume de boi e o levou para seus quadros. Em 2006, o americano , o americano Daniel Edwards apresentou um cocô esculpido em bronze, homenageando a primeira excreção da filha de Tom Cruise e Katie Holmes.

 

Definitivamente, a merda faz parte de nossa cultura. Se no desenho South Park há o simpático e sábio cocô Mr Hanky, no infantil brasileiro Cocoricó já apareceu uma bosta para reclamar do preconceito que sofria. Curioso é que a merda era rapper.

Ainda por estas terras adubadas onde em se plantando tudo dá, o site Cocadaboa.com foi notícia com um serviço no qual o leitor podia mandar emails com fotos de fezes ou encomendar um pacote de excremento humano para ser entregue na casa de um desafeto. Nos EUA, um movimento divulgado no site madeyouthink.org fez uma campnha para que pessoas colocassem bandeirinhas com a foto do então presidente George W. Bush em montinhos de cocô de cachorro.

E quando você dá de cara com uma grande e encorpada bosta no vaso de um banheiro público, pensa que alguém simplesmente esqueceu de dar a descarga? Claro que  não! O cara deixou aquela coisa comprida ali certo de que tinha feito algo digno de apreciação e ficou com pena de mandar embora antes que alguém mais visse. Ele quis compartilha seu trabalho. E sabe o que mais? Você nunca dá a descarga quando se depara com um tolete desses. Prefere passar a outra cabine do banheiro. É o respeito inconsciente. No fundo, você sabe que a arte não afunda.

 

Por Ulisses Mattos

 

Texto original publicado em setembro de 2006, na primeira edição da revista M…, com o pseudônimo Odisseu Kapyn.

Andando pelas ruas, sempre é possível encontrar uma ou outra pessoa bradando mensagens religiosas. Com a Bíblia nas mãos, esses pregadores avisam a todos que devemos nos arrepender de tudo, e que é melhor seguirmos o caminho deles se não quisermos passar a eternidade servindo de passatempo pro Coisa Ruim. O fervor de suas palavras deixa poucas dúvidas de que eles cumprem os Dez Mandamentos à risca, e que têm a certeza de que vão para o Céu quando baterem as botas, abotoarem o paletó, esticarem as canelas ou qualquer uma dessas expressões que usamos para deixar a idéia da morte mais simpática. Mas isso não é o bastante para eles. Não lhes importa que já tenham o lugarzinho garantido no bom latifúndio divino. Eles querem levar mais gente com eles. E muitas vezes conseguem.

Os pregadores devem se dar muito bem com isso quando chegam ao Céu. Ficam mais ou menos como alguém que dá início a um esquema de pirâmide, de marketing multinível.

Antigamente era comum ver em algumas revistinhas baratas uns testes rápidos para descobrir quem você foi em outra encarnação, baseados em dados simples como data e local de nascimento. Elaborados com a maior cara-de-pau, esses questionários invariavelmente apontavam que o leitor, em sua vida pregressa, havia sido um rei, um príncipe, um conde ou qualquer um desses nobres títulos que enchiam o sujeito de satisfação. Às vezes, a gente até descobria que tinha sido Napoleão ou Joana d´Arc. Mas era época de outros valores. Daqui a cem anos, se esses testes safados voltarem a ser moda (mais provavelmente na internet ou em alguma tecnologia mais avançada do que a que temos hoje), as respostas não devem exatamente continuar seguindo a linha da nobreza.

Pra ficarem mais contentes, as pessoas vão descobrir que no início do século 21 eram celebridades.

– Caraca, fiz um teste na internet e descobri que em 2001 eu era apresentador de TV! Eu tinha tudo que queria!

– É mesmo? Eu também fiz esse teste! Eu era um famoso cantor sertanejo! Vivia cercado de fãs!

Gosto de ver programas na TV mostrando animais. Não sou o único. Afinal, o “Globo Repórter” está sempre com esse tema entretendo os telespectadores que não saíram pra caçar na sexta à noite. Além disso, há até um canal inteiramente dedicado ao assunto, o Animal Planet. Lá, não aparecem apenas animais que vivem sujos, famintos e maltrapilhos pelas florestas. Há também animais do Primeiro Mundo, ou seja, cães e gatos bem tratados. Foi num dos programas do canal que vi uma competição de cachorros executando as maiores proezas, saltando pra pegar discos atirados por seus donos.

Os bichos pulam a incríveis alturas, para deleite dos humanos que ficam observando o espetacular esforço de um animal para pegar algo sem importância atirado no ar. Mas não convém se sentir superior ao pobre cão de língua de fora. Basta lembrar que nossa espécie perpetua um hábito extremamente parecido com esse: o curioso ritual das solteiras em disputa pelo buquê da noiva.

 

Percebam. Não há muitas diferenças nas duas situações. Se bem que o cachorro depois é recompensado com um biscoitinho. A moça que entrou na contenda e derrotou outras solteiras menos ágeis e altas (ou de salto menor) ganha apenas um punhado de flores. Às vezes ainda dá vexame, caindo no chão ou deixando os seios também saltarem para fora do tomara-que-caia, como foi registrado nessa foto que navega alegremente pela internet.

 

Há um agravante nesse ritual. Normalmente, as mulheres não sabem o que fazer depois com o tal buquê. Realmente, não existe um consenso sobre o destino do troço. Perguntadas sobre o que fazer com o buquê após a conquista do artefato, as mulheres nunca dão a mesma resposta. Há quem diga que o buquê deve ser jogado fora na saída da cerimônia. Outras acham que deve ser guardado até as flores murcharem. Algumas afirmam que é bom tirar uma das flores do buquê e guardar dentro de um livro. Uma até se surpreendeu diante da minha questão, dizendo que não sabia que podia levar pra casa. Não duvido que haja quem guarde no freezer, esperando o  noivo aparecer. As mulheres só parecem concordar quando dizem que a vencedora do buquê nunca é a próxima a casar. Então para que tanta disputa? Rex explica.

 

Versão original publicada em janeiro de 2004, na revista Domingo, do Jornal do Brasil.