— Tolisses

Coisas do Ulisses Mattos

Silicone x Mulher Brasileira

Tem uma coisa de que nós brasileiros devemos nos orgulhar e que está correndo perigo de extinção. O futebol? A musicalidade? As belezas naturais? Não. É a legítima mulher brasileira. Tá certo que somos um povinho meio feio. A maioria da população só serve mesmo para posar para fotos de Sebastião Salgado, o fotógrafo que adora flagrar a miséria. Mas aquelas que se destacam plasticamente têm realmente um toque especial. E não é pelo jeito e pela fama de sacana, que faz todo gringo achar que vai chegar aqui e comer a irmã de todo mundo. A graça tem raízes na anatomia da mulher brasileira, que deve vir, sei lá, da tal mistura de raças de que os livros de primeiro grau tanto falam (para falar a verdade, nunca falei com um caboclo, embora conheça um cara que desconfio ser mameluco. Mas isso não vem ao caso).

A mulher brasileira sempre teve duas características muito fortes, em termos de corpo: bunda pronunciada e seios pequenos. Não precisa ser um bundão, do tipo mulataça. Pode ser de tamanho médio, mas que faça volume na calcinha, ao ser vista de perfil. E os seios pequenos não significam que sejam de tamanhos de ovos cozidos (muito menos ovos fritos). Podem ter o tamanho de uma pera. São considerados pequenos se forem comparados a melões. O que interessa é que fomos criados sabendo apreciar seios pequenos ou médios, os populares “peitinhos”. É claro que um ou outro indivíduo, talvez criado com muitas Penthouses ou outras revistas americanas, tenha uma predileção por peitão. Tudo bem. Gosto não se discute. Mas cultura, sim. Cultura se discute e muito. E nossa cultura está sendo violada, estuprada, mutilada através do silicone.

No início, o silicone era usado pelos travestis. Nunca esquecerei uma traumatizante reportagem de Goulart de Andrade no “Plantão da Madrugada”, na falecida TV Manchete, com travecos aplicando silicone industrial no peitoral. A gente ali querendo ver aqueles benditos shows de strip-tease que o desgraçado deixava pro finalzinho do programa e de repente entram aquelas figuras horrendas aplicando silicone no peito. Mal sabíamos nós que um dia veríamos nossas vizinhas e primas apelando para a mesma prática, embora com métodos mais seguros, através de próteses. Começou como uma espécie de remédio para vítimas de câncer de mama ou praquela menina que, por um problema genético qualquer, puxou o pai e ficou sem seios. Tudo bem, a gente entende. Mas logo a coisa virou moda. Já vi casos de peitinhos na medida serem sufocados por mililitros de silicone. Só porque agora está todo mundo aumentando suas circunferências. Pra que isso, meu Deus? Não me venham os beatos me criticar por colocar Deus no meio de um assunto tão carnal. Tenho certeza que ele também deve estar louco de ver algumas de suas belas criações adulteradas por enxertos.

Um dos casos que mais me impressionaram foi o da Sheila do Tchan (a melhor delas, ou seja, a morena). Tinha um corpo perfeito, com seios que combinavam em cheio com o ganha-pão, ou melhor, com os glúteos. Tava ali um perfeito espécime de mulher brasileira. Mas algum empresário deve ter cochichado no ouvido da moça alguma besteira e lá foi ela para a faca. É claro que ali tem negócio envolvido. Todo mundo já viu a Sheila pelada. O que fazer para vender mais revistas? Dar um novo corpo para ela! Aí foi todo mundo ver os novos peitos da Sheila. E por aí vai.

Mas a razão mais forte é mesmo o tamanho. Alguém inventou que quanto mais peito melhor. Talvez isso tenha vindo com o lançamento da Feiticeira. Tem muita mulher desconhecida na praia que nunca se preocupou com exercícios nem fez um polichinelo e que botava a Feiticeira no chinelo, com todo aquele corpo forjado em cirurgias e lipoaspirações. Toda hora a mídia resolve que é a vez de alguém aparecer. Aí um monte de gente sem personalidade vai atrás e tenta ficar parecida com a pessoa, seja usando o mesmo corte de cabelo ou a mesma roupa. O problema é que quando decidiram que a Feiticeira era a bola da vez, um monte de modelos e mulheres sem auto-estima quis imitá-la. E não foi usando um véu para esconder que a cara é igual à de qualquer mulher de beleza mediana. Foi enchendo também os seios uma substância artificial.

A questão é que a moda periga virar tendência. Algumas celebridades também foram atrás, mas talvez mais para segurar o peito, depois de certa idade, do que para aumentá-lo. E isso vai incentivando um monte de peitinhos lindos virarem apenas suporte para moldes de silicone. E as técnicas vão ficando cada vez mais avançadas. Já há até sutiã que vai aplicando silicone aos poucos nos seios, sendo absorvido pela pele. Em breve vai ser vendido na farmácia da esquina. Ou na butique, já que seios agora são um acessório de moda. Aí que os últimos peitinhos vão morrer mesmo. Isso os ecologistas não vêem. Ficam se preocupando com a sexualidade de pandas broxas e não mexem um dedo para impedir a extinção dos peitinhos.

E toda uma cultura vai se perdendo. Nossas mulheres estão se curvando diante de um padrão de beleza que não é o nosso. E nem é coisa de querer parecer com mulheres do primeiro-mundo. As mulheres da França, por exemplo, também têm seios de tamanhos semelhantes ao padrão brasileiro. E batem um bolão, aliás. Se bobear, além de viverem nos tirando a chance de termos o posto de melhor seleção de futebol, os franceses vão nos ganhar em beleza feminina. Isso porque nossas mulheres estão ficando como as dos Estados Unidos, uma sociedade que gosta tanto de seios grandes que normalmente os chama de “tetas”. É assim que nossas mulheres estão ficando. Como as americanas. O próximo passo é fazer cirurgias para tirar a bunda.

 

Versão original publicada em agosto de 2001 no site Cocadaboa, com o pseudônimo Odisseu Kapyn.

2 comments
  1. Pedro Garcia says: 14 de março de 201216:00

    Sinceramente, tu conseguiu expressar realmente o que sinto em relação a ‘silicone’.
    Tive contato com algumas mulheres que ‘mudaram’, e com absoluta certeza, posso falar que o silicone interfere e MUITO na personalidade da linda moça que antes possuia lindos peitos pequenos.
    Ótimo texto!

  2. Gabriel Aquino says: 19 de outubro de 201211:27

    Olha, é como eu costumo dizer: Encheu a mão, tá bão.
    Gostar de peitos enormes é até um pouco infantil, me faz lembrar de quando era criança e babava por peitos gigantescos.

    Mulher brasileira, vamos manter o peitinho. É um apelo cultural.

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