— Tolisses

Coisas do Ulisses Mattos

Famoso Quem

Antigamente era comum ver em algumas revistinhas baratas uns testes rápidos para descobrir quem você foi em outra encarnação, baseados em dados simples como data e local de nascimento. Elaborados com a maior cara-de-pau, esses questionários invariavelmente apontavam que o leitor, em sua vida pregressa, havia sido um rei, um príncipe, um conde ou qualquer um desses nobres títulos que enchiam o sujeito de satisfação. Às vezes, a gente até descobria que tinha sido Napoleão ou Joana d´Arc. Mas era época de outros valores. Daqui a cem anos, se esses testes safados voltarem a ser moda (mais provavelmente na internet ou em alguma tecnologia mais avançada do que a que temos hoje), as respostas não devem exatamente continuar seguindo a linha da nobreza.

Pra ficarem mais contentes, as pessoas vão descobrir que no início do século 21 eram celebridades.

– Caraca, fiz um teste na internet e descobri que em 2001 eu era apresentador de TV! Eu tinha tudo que queria!

– É mesmo? Eu também fiz esse teste! Eu era um famoso cantor sertanejo! Vivia cercado de fãs!

Até lá, a lista de categorias tende a crescer. Isso porque a cada década inventamos novos tipos de celebridades. Há algum tempo, para ser famoso a ponto de ser parado na rua, o cara tinha que ser músico, ator ou praticante de algum esporte popular. Com os anos, a mídia passou a criar novas celebridades para poder crescer.

Mulheres que serviam de cabide ambulante pra desfilar roupas nas passarelas aos poucos ficaram bem mais famosas que os próprios estilistas que as vestiam. Eram as supermodels ganhando status e passando a ser dignas de entrevistas e reportagens sobre suas vidas. Mais recentemente, passamos a reconhecer DJs, alguns até merecidamente. Mas depois que descobrimos verdadeiros talentos das carrapetas, começou a chover DJ. É impressionante como a cada hora surge um novo, como se fossem hamsters ou pagodeiros. Hoje, até um sujeito que toca berimbau numa roda de capoeira já se acha DJ:

– Tô dando som lá na roda do Mestre Suvaco. Aparece lá! Tomaí um flyer!

Depois vieram os participantes de reality-show. Já temos de começar a pensar na próxima leva de celebridades. Quem passará a ter a vida romântica acompanhada de perto pelo povo? Na falta de onde achar, uma dica para os caçadores de talento: atores da terceira divisão. O que é isso? Explico.

São aqueles profissionais que trabalham em pegadinhas no estilo Teste de Fidelidade (tanto a boazuda com a tarefa de seduzir, como os que posam de traidor e traída); os que atuam em reconstituição de crimes e até os que interpretam consumidores de produtos milagrosos, tipo Polishop. Uma indicação de que estamos chegando lá é que atores de comerciais de lojas e atrizes de propaganda de cerveja já são celebridades.

Ou a gente passa a venerar essa categoria de profissionais ou no futuro vamos ouvir algo assim:

– Cara, fiz um teste na internet e descobri que por de 2010 era um vlogger!

– Maneiro, cara! Isso era melhor que ser blogueiro, né?

– Acho que sim… Não estudei direito sobre isso na escola.

 

Versão original publicada em outubro de 2004, na revista Domingo, do Jornal do Brasil.

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