— Tolisses

Coisas do Ulisses Mattos

Enfia na orelha

A tecnologia nem sempre está a serviço do progresso do ser humano. Às vezes, ela ajuda na evolução do homem apenas para lhe dar uma rasteira mais adiante.  É o caso dos aparelhos sonoros portáteis e o que chamo de “a volta dos imbecis com rádio de pilha”.

Há algumas décadas, as pessoas de bem, discretas e com bom senso padeciam ao lado daqueles que curtiam ouvir um som bem alto por aí. Seus aparelhos não eram volumosos e assustadores como os rádios gigantescos dos caras dos filmes americanos dos anos 70, mas eram tão irritantes quanto. Isso porque se o som não era tão alto a ponto de ameaçar a integridade de seus tímpanos, o maldito sonzinho causava irritação por ser impossível de identificá-lo plenamente. Era ainda mais detestável quando tentávamos entender o que o cara da rádio estava falando ou identificar aquela musiquinha mequetrefe que estava tocando. Não dava para saber. Eis o legítimo ruído, capaz de perturbar os passageiros de um ônibus com mais intensidade do que os vendedores de balas e outros “passatempos da sua viagem”.

Mas eis que o Walkman e seus genéricos se popularizaram. Os fones de ouvido foram conquistando todo mundo e nem mais nos estádios de futebol se viam muitos torcedores com radinho de pilha colado na orelha. Depois dos rádios e toca-fitas devidamente domados pelos fones, vieram os primeiros MP3 players. Parecia que o som alto em ambientes fechados – como ônibus, vagões de metrô, salas de espera, fila de banco, elevadores etc – estava realmente com os dias contados. Pois se os aparelhos tinham de uma incrível capacidade de armazenamento de músicas, felizmente falhavam em capacidade de amplificação sonora.

Era mesmo preciso usar um fone de ouvido para apreciar as músicas. Ainda havia alguns imbecis que botavam seus players no máximo, deixando umas migalhas de som escapar para quem ficasse perto deles. Mas não íamos reclamar de barriga cheia e ouvidos semivazios. A felicidade ainda imperava e parecia que não ia encontrar fim, pois surgiram MP3 mais modernos, seguindo ainda a linha racional, sem alto-falantes: os iPods.

Mas a coisa começou a ficar perigosa com o iPhone. O celular da Apple um tinha alto-falante que podia ser usado para se ouvir MP3. Mas como seus usuários tinham certo poder aquisitivo, uma educação mínima e muita preocupação com a autoimagem, não se via por aí alguém ouvindo músicas no iPhone a todo volume sem fones. Steve Jobs não aprovaria. Nada cool. No entanto, a tecnologia mais uma vez fez hora extra e vários outros aparelhos celulares passaram a oferecer armazenagem de MP3. E como havia alto-falantes para o viva-voz, resolveram que o MP3 também poderia ser ouvido pela caixinha de som. Os celulares baratearam, chegaram na mão do povão e… deu-se a merda.

Voltamos à era dos imbecis de rádio de pilha na orelha, mas com outra roupagem. Em vez do radinho colado no ouvido, um moderno aparelho desenvolvido por laboriosos engenheiros e vendidos a prestações de dois dígitos em qualquer loja barateira. E o pior: com tanta potência que nem é preciso levar o bichinho ao pé do ouvido.

Hoje, inúmeros babacas ouvem seu celular com MP3 a todo volume. Não se sabe se simplesmente esqueceram de levar os fones de ouvido ou acham que são DJs e precisam botar som para todos ouvirem. Ou seria mais uma forma de exibicionismo? Eles querem mostrar seu gosto musical para todos? Incrível como as canções executadas nunca são do tipo que as pessoas que se sentem incomodadas gostam. E mesmo se fossem, tocar música atrapalha os que estão aproveitando a viagem para ler um livro, estudar para uma prova, escrever anotações para uma palestra etc.

Uma vez estava eu no metrô e um rapaz botou seu celular para “dar som” no vagão. Uma moça foi até ele e pediu que desligasse, pois estava atrapalhando a leitura de seu livro. O cara desligou, mas resmungou em voz alta: “Estamos em um espaço público e não posso ouvir música”. Sensacional o grau de distorção do sujeito. Pensei em dizer “Amigo, se é público, é de todos. Então, você precisa pensar em todo mundo, sacou?”. Mas não ia perder tempo com um cara desses. Tenho que reclamar é com o engenheiro que não colocou um dispositivo que só permitisse a execução do MP3 e rádio do celular com fones, deixando o alto-falante apenas para o viva-voz das ligações. Mas também não deve adiantar resmungar com a empresa. O jeito é meter um fone no ouvido para protegê-lo e sair por aí tentando ignorar o resto do mundo. Cada um na sua concha. Acústica, de preferência.

 

Versão original publicada em junho de 2009, em www.mcorporation.com.br.

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